O outro quintal

Se o Brasil "não cabe no quintal de ninguém", por que a soberania só é invocada contra Washington e não contra Pequim?

Gladyston Santana | 25/09/2026

O outro quintal

(Foto criada por IA)

O discurso de Lula na ONU pode até parecer "poderoso" e coerente com o que se espera de um presidente: o Brasil não aceita ser tratado como quintal de uma potência. Mas política externa se julga pelos atos, não apenas pelas frases. De um lado, Lula denuncia hegemonia, ingerência e pressão estrangeira, em clara crítica implícita aos EUA de Donald Trump. Do outro, seu governo aprofunda acordos, investimentos e cooperação estratégica com a China, cedendo setores cada vez mais relevantes.

Em abril de 2023, durante visita a Pequim, Brasil e China assinaram 15 acordos governamentais, além de diversas parcerias entre empresas e instituições dos dois países. Os documentos envolveram áreas como tecnologia, comunicações, infraestrutura, indústria, agricultura e cooperação espacial. Em 2024, na visita de Xi Jinping ao Brasil, foram 37 atos em agricultura, comércio, investimentos, infraestrutura, energia, mineração, tecnologia, comunicações, saúde e educação — incluindo memorandos entre o Grupo de Mídia da China e a Empresa Brasil de Comunicação.

Já em relação ao eixo Brasil–EUA, a postura de Lula tem sido de críticas constantes, alimentando um distanciamento diplomático nunca antes visto entre os dois países. Não se trata de dizer que estabelecer negócios com a China signifique, por si, perda de soberania. Países soberanos fazem negócios e estabelecem parcerias.

A questão é outra.

Quando um governo acusa os EUA de tentar exercer influência sobre o Brasil, mas simultaneamente aprofunda vínculos estratégicos com outra potência dominante, é legítimo perguntar se existe uma diferença de critério. E realmente existe.

Lula sempre demonstrou e defendeu aproximação política e diplomática com governos autoritários, fortemente criticados por organizações internacionais de direitos humanos, como Cuba, Nicarágua e Venezuela. Não se deve esquecer que a China, governada por um único partido comunista, faz uso de fortes restrições políticas, religiosas e civis. O mesmo presidente não escondeu alegria e caráter político ao comemorar publicamente a indicação de Flávio Dino para o STF por ser "um ministro comunista" na mais alta Corte do Brasil. Isso revela, equivocadamente, que o próprio Lula utiliza a identificação com o comunismo como elemento positivo em sua narrativa política — o que ajuda a entender por que a relação com o Partido Comunista Chinês ocupa espaço central em sua visão de mundo.

A interferência de uma potência mundial sobre países menos influentes não é apenas bélica ou declaradamente anunciada, como no caso dos EUA com Donald Trump. É notório que a China usa outra estratégia: a dominância econômica. Nesse caso, a potência chinesa procura estabelecer o seu "quintal" no Brasil. E tem conseguido com Lula. É só olhar, sem muito esforço, a invasão dos carros elétricos da BYD no Brasil, com incentivos muito mais atraentes, que desequilibram e sufocam seus concorrentes.

Se o Brasil realmente "não cabe no quintal de ninguém", como afirmou Lula na ONU, então também não deveria precisar de um novo quintal para exercer sua política externa.

Isso leva a insistir em mais uma pergunta diante dessa fala contraditória de Lula na ONU: por que a soberania brasileira é apresentada como indispensável quando a influência vem de Washington, mas a crescente aproximação com Pequim é tratada como parceria estratégica? Na verdade, a verdadeira soberania não deveria significar escolher entre um gigante e outro, mas não ser politicamente dependente de nenhum deles. E nenhum presidente fez isso — em especial Lula, que passou mais tempo no poder.

O Brasil é grande demais para ser quintal de qualquer potência. Mas também precisa ser independente o suficiente para não transformar sua oposição a uma influência americana em porta aberta para a outra, a China.

Se "o Brasil não cabe no quintal de ninguém" é mais parte de uma frase de efeito em um discurso bonito de "soberania" vazia de Lula do que um princípio prático para ser aplicado — inclusive para Xi Jinping.

Fontes:

G1 — "Na ONU, Lula defende soberania e diz que Brasil 'não cabe no quintal de ninguém'" (22/9/2026). 

Brasília in Foco — "Empresas chinesas ampliam investimentos no Brasil e avançam em tecnologia, indústria e consumo" (24/9/2026). 

G1 — "Brasil x EUA: a linha do tempo da crise que escalou em 2026" (5/8/2026). 

CNN Brasil / Poder360 / EBC / DW / TV Brasil / Exame — íntegras e coberturas do discurso de Lula na ONU (22/9/2026).